Blog da Coroa

O outro lado do Cara!

Brasília, a capital da concentração de renda

Do site da UnB: Brasília, a capital da concentração de renda

Marcel Bursztyn – Professor da Universidade de Brasília, junto ao Departamento de Sociologia

Quem vive e se interessa pelo Distrito Federal sabe que aqui os indicadores associados ao bem-estar são melhores do que no resto do Brasil. Acostumamo-nos a um padrão social menos injusto que a média nacional, pois a forte participação dos empregos públicos na composição geral da renda das famílias do DF evitou que a concentração de riquezas dos anos de regime militar fosse tão grande. O Estado, como empregador, é menos concentrador de renda do que o setor privado.

Pesquisa divulgada em 13 de jullho de 2010 pelo IPEA (Dimensão, evolução e projeção da pobreza por região e por estado no Brasil – Comunicado do IPEA n° 58) mostra, entretanto, um quadro no mínimo constrangedor no DF. Enquanto em todas as demais 26 unidades da federação a concentração de riquezas diminuiu, entre 1995 e 2008, a capital do Brasil apresentou um aumento na distância entre ricos e pobres.

Após mais de duas décadas de redução do papel do Estado, os últimos anos testemunharam um movimento no sentido da recomposição (salarial e de pessoal) nos quadros da administração pública. Isso, no DF, significa um certo “enriquecimento” da classe média alta, em comparação com os estratos mais pobres da população. Por outro lado, a imagem de “capital da esperança” seguiu atraindo para Brasília migrantes pobres de outras regiões. Em poucas palavras, cresceu o contingente mais bem remunerado, mas também cresceu o número de pobres.

Mas não é só de funcionários que se compõe o estrato mais rico do DF. Ao longo das últimas décadas cresceu – e prosperou – um grupo que não está diretamente atrelado ao Estado (empresários, altos funcionários do setor privado, profissionais liberais). Paralelamente, o percentual de pobres em relação ao total da população diminuiu no período estudado, embora a taxas inferiores às verificadas em outros estados brasileiros.

É como se tivéssemos dois veículos numa estrada: um carrão acelerando, na frente, e um fusquinha avançando lentamente, na rabeira. Ambos se deslocam no mesmo sentido. Mas enquanto o de trás anda um quilômetro, o da frente já percorreu dois. A distância aumenta, mesmo que ambos avancem.

Dois pontos merecem consideração. Primeiramente, a recomposição dos quadros do Estado não pode ser vista como a vilã do processo de aumento na concentração de renda, ainda que alguns setores (notadamente no Legislativo e no Judiciário) desfrutem de padrões salariais exageradamente altos. Em segundo lugar, o crescimento na “ponta de baixo” (na pobreza) comprova que não existe solução local para um problema nacional.

Enquanto Brasília representar, no imaginário das pessoas, um oásis de prosperidade, o DF será o destino de migrantes de baixa renda, vindos de outros cantos do Brasil. Essa pressão demográfica só vai cessar no momento em que os locais de origem desses migrantes oferecerem boas oportunidades. E isso significa termos políticas de abrangência nacional, para além da simples transferência de renda: habitação, emprego, saneamento, educação e saúde.

julho 30, 2010 - Posted by | Uncategorized

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